quarta-feira, 27 de agosto de 2008



E as coisas aqui continuam ao contrarío...

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Trechos

“Porque era mágico e justo encontrarem-se, Touro, Escorpião, exatamente nesse ponto, quando eu vê o outro.” (Caio Fernando Abreu - Mel & Girassóis)

Laços

Théo corria, fazia isso tão rápido que nem percebeu quando esbarrou com toda força em um garoto de cabelos castanhos e cacheados, pele meio amarelada e um sorriso de quem acabou de aprontar alguma coisa, que vinha na direção contrária.
- Tá indo pra onde?
- Eu não tô indo.Tô vindo.
- Isso eu sei. Todo mundo que esta indo pra algum lugar está vindo de algum lugar. Maaas, eu perguntei "Pra que lugar você está indo".
- Não sei, nem quero saber.
- Mas eu quero saber, ora!
- Cê me dá licença!?
- Você ainda não me disse o que eu quero.
- Você por acaso é algum tipo de maluco que acha que tem que saber tudo aquilo que não é absolutamente da sua conta?
- Eu sou apenas uma pobre criatura que precisa de alguém que dê um laço na sua gravata.
- Se eu der o laço na sua gravata, você me promete que me deixa ir?
- Se for um laço bem bonito...
- Certo...
- É que hoje é um dia muito importante pra mim
- Sorte a sua.
- Tem certeza que hoje também não é um dia muito importante pra você?
- Eu não quero falar sobre isso.
- O nome disso poderia ser algo como "Falta de preparo para lhe dar com uma situação especifica". Mas eu prefiro chamar de "Perda de tempo". Afinal se você tem que lhe dar com uma situação especifica é melhor encarar logo o fato, se não um dia lá na frente você pode se tocar "Que bobagem, perdi anos da minha vida tentando escapar de algo que era inescapavel em vez de tentar viver aquilo, visto que a vida é nada mais do que viver cada coisa que acontece.
- Tudo bem. Você venceu. Eu tava realmente fujindo... Gostou do laço?
- Eu prefiro laços firmes. Aqueles mais dificeis de se fazer e desfazer. Mas que depois de feitos ou desfeitos podem se orgulhar de si proprios e falar com convicção "Eu fui um grande laço!".
- Laços não falam... Muito menos com convicção.
- Mas eu falo! E sobre temas variados. Posso dizer todos os motivos que um menino tem pra não chorar em ordem alfabetica, ou recitar um poema de amor, ou contar uma piada. Cê sabe aquela do papagaio que não gosta de piada de papagaio? Eu poderia passar horas discorrendo sobre bobagens em geral e ainda explicar a importância de cada uma delas, mas desde que você exija.
- Você ganhou. Eu exijo uma explicação pra essas bobagens. E ai o que você tem a dizer?
- Que é bobagem chorar por laços desfeitos mas que continuam firmes. Alguns laços são teimosos. Um dia gente pensa assim "Puff, lá se foi ele" Mais ele vai estar sempre ali. Que nem alguns amores.
- Tá bom seu maluco da gravata. Eu estava vindo do enterro do meu pai. Eu não queria ficar ali, dai eu fugi. Não sei pra onde, lugar nenhum me interessa agora que ele não está mais em lugar nenhum.
- Ficou lindo!
- Oi?
- O laço.
Théo se despediu daquele estranho que afinal de contas nem era tão estranho. Levava consigo a profunda sensação de que já conhecia aquele rapaz que encontrara no cruzamento da rua três com a Tocantins. Ao chegar em casa, tirou o tênis e correu escada acima na esperança de encontrar a mãe no quarto. Encontrou-a sentada na cama com o olhar perdido como quem buscava na cabeça alguma lembrança que a deixasse feliz.

- Mãe?
- Oi, meu filho. Saiu correndo de lá... Do... Você sabe!
- Não conseguia ficar mais, desculpa.
- Tudo bem, eu queria fazer o mesmo que você.
- Mãe, me dá alguma coisa do meu pai, pra guardar de lembrança?
- Espera.

A mãe de Théo se levantou e caminhou lentamente até um baú de madeira que ficava no chão ao lado do armário, era lá que ela guardava as fotos, documentos, cartas e bilhetes. Remexeu entre os variados papeis que havia lá dentro e tirou um envelope já amarelado pelo tempo. Abriu. Tirou uma foto e entregou a Théo.

- Seu avô tirou essa foto do seu pai no dia em que tivemos o nosso primeiro encontro.

Théo sorriu ao ver que aquele garoto da foto que tinha um sorriso tão misterioso, tal como se tivesse acabado de fazer uma travessura. Cabelos castanhos cacheados, olhos castanhos e uma pele meio amarelada e um laço na gravata tão bonito e exatamente igual ao que ele tinha dado na gravata daquele garoto há uma hora atrás.